Talvez não tenha ficado claro, mas Elif Eralp enviou as anotações por engano. Ao perceber o equívoco, pediu à revista que não as divulgasse
O Der Spiegel negou o pedido por três motivos: o interesse público acima da confidencialidade, a responsabilidade de Elif Eralp como futura prefeita de Berlim e a segurança dos cidadãos - que deve prevalecer sobre a segurança pessoal de quem ocupa a prefeitura
Em outras palavras, cumpriu o velho adágio do jornalismo sério: revelar ao público aquilo que os poderosos preferem manter em segredo
E chamo a atenção para um ponto: Elif não estava preocupada com alguma política ou medida que, porventura, pudesse enfurecer Ibrahim Ibrahim, representante do radical VPNK (Comitê Nacional Palestino Unido). Não. Ela tem medo até de mencionar seu nome! Isso é extremamente grave. É nível Pablo Escobar de intimidação
O que torna tudo ainda mais insólito é que, embora Elif aponte Ibrahim como um risco à sua segurança e de sua família, ele esteve presente à festa de seu partido, o Die Linke, logo após a eleição, e posou com diversos integrantes da sigla
O que nos leva à pergunta: se isso acontece na Alemanha, país que leva a sério o combate ao radicalismo político e religioso, o que estará acontecendo em outras grandes cidades europeias? É um caso pontual ou um fenômeno mais generalizado?
É bizarro o que está acontecendo na Alemanha
A futura prefeita de Berlim, Elif Eralp, deu uma entrevista à principal revista do país, a Der Spiegel, e devolveu a transcrição com suas próprias anotações. Nelas, revela temer ativistas radicais pró-palestinos e, em particular, Ibrahim Ibrahim, associado à Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP)
“Nem meu marido nem eu queremos mencionar nomes específicos; ele tem medo dessas pessoas, e eu também”, escreveu
Na mesma transcrição, sua porta-voz explica que não pode pedir ao jornalista que retire a pergunta - foi ele quem mencionou Ibrahim Ibrahim e Elif apenas consentiu. Ela, então, retruca: “O que eu faço agora? Eu nunca deveria ter concordado com esta entrevista”
Agora, por incrível que pareça, Elif ameaça processar o Der Spiegel por divulgar as anotações que ela própria enviou!
Mas voltemos a Ibrahim Ibrahim: ele esteve presente à festa da Die Linke (espécie de PSOL alemão) após a vitória do partido e posou ao lado de vários integrantes da sigla. Poucos dias depois, viajou à Turquia para participar de uma conferência com representantes do Hamas
E a pergunta que fica é: se até a futura prefeita teme por sua segurança, como os cidadãos de Berlim podem se sentir tranquilos?